Blog do Carpinejar

O MAR PEDE UM TEMPO

Não há como subestimar a capacidade inigualável das crianças de arrumar de arrumar amigos e fantasiar


Quando há sol no litoral, a praia nos chama rápido com seu chiado de chaleira, a fome é maior do que o almoço, a sesta nem espera o bocejo, as crianças se divertem naturalmente. As horas correm de modo automático, quase um liga-desliga no próprio mar, sem a necessidade de controle remoto.

A chuva é que traz o nervosismo. Não contamos com um plano B ou uma saída alternativa. Vem a irritação. A geladeira é a única porta com luz.

Apesar do barulho chuvoso das calhas, tentei dormir até tarde para não decidir nada, mas fui obrigado a me acordar para não ter nada para decidir. A sensação é que não poderia desfrutar de vida naquelas 24h. Deveria deixar meu filho Vicente, sete anos, viver em meu lugar.

Fiquei interditado: é agora que meu filho vai se entediar. Não admitia que tivesse monotonia. Praia é sinônimo de verão inesquecível, um dia melhor do que o outro. Ele telefonaria para sua mãe no final da tarde e reclamaria:

– Hoje foi péssimo, não fizemos nada.

Já o pressenti riscando o dia de sua agenda, desenhando uma cruz nas paredes, amaldiçoando minha absoluta ausência de criatividade.

Comecei a me angustiar. Como posso alegrá-lo? Queria ler e larguei os poemas de Antônio Nobre na cabeceira. Queria caminhar e abandonei a excitação dos exercícios. Somente pensava em como satisfazer meu filho. Já era uma profissão, uma questão emergencial.

De cara, armei uma guerra de travesseiros, pena que esqueci que não tinham penas. Não houve aquela imagem linda de plumas esvoaçando, a cena só doeu. Ele choramingou quando dei um safanão com a fronha em suas costas. Não dosei o gesto e quase perdi sua cumplicidade. Depois de acalmá-lo, partimos para jogar pingue-pongue. A bola quebrou no meio com a violência da raquetada. Não desanimei, estava obcecado em arrancar a felicidade de seus lábios e entrever os dentes do fundo. Partimos para assistir filmes no DVD, com pipoca. Mal terminou e o convidei para um futebol na areia. Emendei a saída para comer crepe. Em seguida, disputar fliperama. Não existia folga, experimentava uma gincana escolar, ávida de algazarra, ininterrupta.

Quando iria convidá-lo a brincar de taco, ele me observou com toda ternura:

– Me deixa quieto e sozinho um pouco.
– Por quê? Está triste?
– Não, estou com saudades de mim. Não consigo pensar.

A carência era minha, não dele. Não suportava a minha solidão, eu é que não sei ficar quieto. Não permitia meu filho definir suas vontades, descobrir seus impulsos. Odiava a chuva e julgava que ele tampouco gostava. Já fui me antecipando, raciocinando em seu lugar, impondo uma rotina de aventuras.

A paternidade não era substituí-lo, mas respeitar sua imaginação. O sofrimento aumenta na ânsia de disfarçar a dor.

Atolamos e sobrecarregamos as crianças porque concluímos que o silêncio é tristeza e que elas não têm coisa alguma para brincar.

Estamos errados. Elas se viram. Não há como subestimar a independência delas, a capacidade inigualável de arrumar amigos, fantasiar e idealizar jogos de meros prendedores e caixas de sapatos.

Levamos os filhos no shopping, levamos nos brinquedos, levamos nas lojas, levamos nas tabacarias. Sob alegação de preparar uma surpresa, nunca perguntamos se realmente querem sair de casa.

Vicente se distanciou de mim, sentou no chão do quarto para brincar com seus bonecos. Conversava baixinho, zunia espíritos dos sons, articulava sirenes. Pela primeira vez no dia, soltou uma risada. Uma risada límpida, sem a minha ajuda. Aquilo me envergonhou. Talvez desejasse ser o responsável pela sua alegria, mas deveria cuidar primeiro da minha.

– Feliz, filho?
– Sim.
– Desculpa, não percebi o cansaço.
– Sabe por que chove, pai?
– Para diminuir o calor?
– Não, é para o mar pensar. Ele não consegue pensar com tanta gente dentro dele.





Publicado no jornal Zero Hora
Foto de Adriana Franciosi
Editoria Geral, p. 23, seção Estrelas do Mar
Porto Alegre (RS), 13/02/20010

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